Arthur
Vniversale descrittione di tvtta la terra conoscivta fin qvi
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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Pequena Estória
Era uma vez um homem que morreu de amnésia, esqueceu que tinha morrido e viveu para sempre.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Pele
Depois de anos, suas peles haviam colado e ficara difícil de separar. Doía, sempre, que constantemente um ou outro forçava de ir para um lado contrário. Tentaram, inclusive, entrepassar uma faca; provaram de morfina, e ao que passava o efeito a dor voltava. Foi caso, de outrora, terem escondido um ao outro sob a roupa, a evitar constrangimentos. Chegou uma hora e não houve jeito, procuraram um médico. Disse o médico que a solução seria simples: anestesia geral, bisturi, e repouso. Hesitaram, de susto, ao que parecia simples e resolvível como nunca fora antes. Concordaram, por fim, e de resto só houve silêncio. Silêncio pelos dias que se arrastaram, por horas, por minutos, até que o médico adentrou a sala de cirurgia e o anestesista veio logo atrás. Deitados, se entreolharam, como uma despedida.
Acordaram horas depois sobre camas separadas. Pareceu sonho, em si, quando ele, ao abrir os olhos, encarou o teto hospitalar pálido e moveu o braço esquerdo, solto, leve, e sentiu a roupa de cama, sozinho. Virou o corpo; deitar de lado, enfim, não o fazia há muito, e nisso fitara o outro canto do quarto, e ela estava lá, virada de costas. Pensou em chamá-la, e não veio a voz. Uma enfermeira entrou no quarto e correu a cortina por entre as camas; disse-lhes que descansassem; receberiam alta na manhã seguinte.
Ele não dormira bem, e nem o café o animara; perturbava-lhe, sobretudo, a mórbida inércia do quarto. Foi que levantou, pela primeira vez, livre da outra metade. Leve, como uma pluma, caminhou até a janela, de onde vinha uma brisa fina da manhã. Ela já não estava mais no quarto; tinham a levado para um outro, dissera a enfermeira. Debruçou-se sobre o parapeito da janela, a percorrer os olhos sobre lá fora: as pessoas pareciam pesadas como nunca, em sua maioria, vinham rompendo o ar das calçadas, ao trabalho, a um encontro; angústia, nos passos, e ele apenas oco, tão leve que mal podia caminhar convicto, dar passos humanos sob ação da gravidade. E ao que seria fácil se deixar carregar pelo vento, fechou a janela; precisava deixar o hospital. Vestiu-se e desceu as escadas; procurava aprender o próprio peso, e não aprendia.
Entrou em um táxi, e pelo caminho as ruas e casas não mais tinham humor, nem verso; a vida como nunca deveria ter sido e agora estava sendo; a ausência injusta de um corpo, um corpo, que mais parecia ter sugado todo seu sangue. Ao que transpassaria um corpo estranho ao lado do próprio, sentiria um empurrão e não haveria músculo para o apreço do abraço; a pele alheia, seu grande vício, extinta; a alma sua, com os últimos meses, que passara a sorrir entrecortada, e no carinho, na ponta dos dedos bem havia um refúgio, nunca uma paz; a ânsia por liberdade, sem saber que quaisquer das coisas que a tangiam passavam pela terrível ideia de decisão, poder escolher o que se queria, ao que não há mais a paixão efêmera a guiá-lo.
Diante da mais urgente necessidade de percepção, logo a frente, estático, áspero, duro, estava o amor, o amor, o próprio, o amor não dito, não desenhado, não musicado, o amor, amor dos amores que escreveram a história e implodiram nos seres as mais veementes vontades. O amor estava claro, ao que não era mais pele, mas um vazio tocável; saía, líquido, pela cicatriz, do antebraço ao banco do carro. Chegou em casa, flutuando. Discou o número, em desespero; chamou uma vez e ela atendeu, sufocada, no cair de uma lágrima.
Arthur Wilkens
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
A Macabre Illustrator
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Retrato Urbano
Fazia tanto frio na praça, que Francisco julgou provocar-se um estalo entre os dentes, um estalo seco, pois não podia vir de nenhum outro lugar o som que ouvira, ainda que tão absorto estivesse, estagnado no banco, acordou-se perplexo, no secar de uma última lágrima, e soprava tão finamente o vento naquele fim de tarde que ninguém veria uma folha sequer arrastar-se pelas calçadas apetecendo o ouvido de qualquer resquício nostálgico que desse de vagar pela cabeça. Francisco mordiscou o filtro do cigarro, estalando os dentes mais uma vez. Tinha o receio em tirar a mão do bolso quente e bater a cinza ao chão, confortando-se em deixá-la cair sobre o próprio sobretudo, e a fumaça, tão serena dobrava-se sobre a aba da boina, contornando o tristonho semblante de um homem que, a última coisa que podia transparecer, é que perdera completamente a noção do tempo. Teriam passado trinta, quarenta, cinquenta minutos, muito provavelmente mais de uma hora, e sabia tão bem Francisco que sua verdadeira vontade era de não voltar em casa pelo menos até alguma hora da madrugada que contentou-se, com os olhos sombreados em fitar vagarosamente um velho que atravessava o largo, ofuscado com os últimos raios de sol que manchavam sorrateiramente o dia nublado, segurava uma sacola, voltando da padaria, quem sabe, onde comprara um baguete ou meia dúzia de pães. Levantou-se Francisco e andou em passos lentos até o centro do largo, onde leu num busto em mármore, Dom Feliciano José Rodrigues de Araújo Prates, e diante da estátua a encarou, consentindo que a tocasse despretenciosamente, sentiu na ponta dos dedos a pedra fria e gasta, tão somente um material esculpido, nem mesmo uma deixa de condolência. Baixou a cabeça, e em passos pesados acompanhou os próprios pés Francisco, voltava infernalmente a projetar Marina, que não chorava, e tão frias eram as mechas negras sobre o rosto frágil, escondiam uma expressão agoniada, mas não ao passo do desespero, que lhe seria satisfatório, e indiferente como nunca a vira, absolutamente inconcebível, fazia-lhe mal lembrar quaisquer das palavras ditas, fazia-lhe mal lembrá-la virando o corpo e partindo, talvez aquela mesmo teria sido a primeira imagem que teve da mulher independente que sempre almejou, dali mesmo sem hesitar em diminuir o passo ou dar a volta. Em verdade, fazia-lhe tão mal lembrar a cena pois não era possível que aquilo fosse compreendido como passado, porque passado é aquilo que já se viveu, que já se foi e é apenas memória, não como Francisco sentia agora, a tragédia ainda mais crua que lhe parecia doer o peito, arrastava-se cabisbaixo, ainda com as mãos no bolso, envergou o rosto em desespero e fechou o punho, e nenhuma lágrima escorreu, porque não bastaria. Naquele momento apertou o vento um bocado, e ouvia-se pela primeira vez o andar das folhas sobre o asfalto, lembraram a ele um chocalho, e nesse segundo começou a chover por ali de mansinho, emoldurando de longe Francisco, Dom Feliciano e uma cidade molhada, cheia de luzes.
Arthur Wilkens
quinta-feira, 23 de junho de 2011
A experiência
Tenho uma proposta a te oferecer.
Qual?
Tu gostarias de te sentir de uma forma completamente diferente, como se só o momento fosse importante?
Não sei... Isso entraria no laudo?
Não. É mais uma experiência que eu estava para te propor desde a última vez que conversamos sobre "realidade".
Entendo. Mas você não vai me hipotizar, né?
Fica tranquilo. Sabe aqueles CD's que usam para relaxamento?
Sim, minha mãe costumava ouvir isso.
Bem, isso é sugestionar. Vai ser tudo o que vou fazer, uma mera sugestão de um estado, consciente.
Se trata do quê, exatamente?
De religião. De deus.
Você só vai ouvir o som da minha voz e responder quando eu pedir, ok?
Tá bem.
Feche os olhos. Comece concentrando-se na sua respiração. Toda a sua inspiração. Toda a expiração. Não deixe a mente divagar. Isto é um exercício da atenção. A única coisa que deve estar na sua mente é o fluxo de ar que entra e sai, junto com cada sensação que isto produz. Perceba a maneira com a qual seus pulmões se enchem de ar. Como eles ficam quando você exala esse ar. Se sente mais relaxado?
Bem mais. É como se meu corpo estivesse pesado e super-leve ao mesmo tempo.
Certo. Agora volte sua atenção somente para minhas palavras. Quero que você tenha em mente aquilo que chama de deus. Consegue fazer isso?
Acho que sim. Creio que posso personalizá-lo sob uma figura, não?
Sim. Da maneira que você o imagina. Suponho que você acredite que deus é o criador, o responsável por aquilo que existe em nossas vidas e por nossas próprias vidas, estou correto?
Sim, é como já tinha dito na nossa última sessão, não vejo nenhuma ordem e sentido no universo sem um Deus.
Bem, mentalize isso. Acho que pode imaginar deus controlando tudo, esta imagem como algo onipotente e onisciente nos mundos. Agora vem a parte complicada. Quero que, apenas imagine, que se permita, considerar o mundo sem deus. Que não exista nenhum tipo de força que crie ou criou o universo. Quero que tente aceitar que tudo foi obra do acaso.
Não sei se posso fazer isso... Sinceramente.
A experiência da qual eu te falei só vai ser bem sucedida caso você consiga mentalizar o que estou propondo. Eu sei que você consegue.
Bem, talvez...
Comecemos do alto. Imaginando um ponto. À volta desse ponto, tudo branco. Um ponto negro, bem no centro. Agora imagine esse ponto explodindo. Implodindo primeiramente em branco, enquanto o resto se torna preto. Rapidamente esse ponto branco cresce, cresce, cresce e cresce, quase que você só enxerga um branco tão vivo que te cega por uns momentos. E então, quando você consegue olhar mais uma vez, vê um oceano negro cheio de pontos luminosos. Vamos agora até a via-láctea, consegue imaginá-la?
Sim, como numa fotografia.
Certo, como numa fotografia. Agora cheguemos mais perto. Vemos um astro, gigante e luminoso, de uma cor amarelo-alaranjado. Vê alguém?
Não... Apenas "vejo" silêncio.
Ótimo. Imagine que, como você sabe, entram na rota desse gigante algumas esferas, algumas pequenas e outras maiores. Perceba que, com este movimento, elas vão se aproximar cada vez mais da nossa esfera luminosa?
Sim, é o Sol atraindo os planetas com seu campo gravitacional...
Ok. Agora avance no tempo. Você está enxergando algo parecido com a atual configuração dos planetas e suas respectivas órbitas. Vamos agora nos focar na terceira esfera, quase incandescente de tão quente: a Terra primordial. Pode vê-la? Passamos o tempo. Vemos as primeiras bactérias, vemos seres pluricelulares, vemos tudo tão e tão rápido que nossos olhos mal podem acompanhar. Agora paremos nesses primatas. Bem conhecidos, sim. Eles tem uma característica peculiar: andam eretos. Vemos um deles andando mais rápido, ao passo que seu corpo vai se adaptando para correr e capturar melhor suas presas. Seus olhos estão bem treinados, e agora eles se equipam com lanças e já dominam o fogo ao seu bel-prazer. Uma curiosidade: nas parades das cavernas, onde estes homens dormem, você vê algo?
Sim, vejo algumas pinturas, uns animais, alguma coisa com o Sol e a Lua também.
Estes 'desenhos' são os percursores de algo que vai surgir daqui a um tempo. Passemos o tempo. Vemos civilizações, a sedentarização do homem, vemos morte, vemos lutas, e vemos deuses. Indo à Grécia antiga, onde estes já estavam avançados para o seu tempo, sabendo muito sobre si mesmos e o quanto ainda sabem que não sabem, vão deixando seus deuses de lado. Começam a desfrutar de si mesmos, e põem toda sua atenção no homem. Mais a frente. Vemos Roma, Mais a frente. Aqui. Este é o cúmulo do poder divino, onde "deus" domina aos homens. Onde há o máximo de restrições à suas faculdades, à sua liberdade. Enquanto seguimos, vemos o Renascimento, o Iluminismo, o homem se redescobrindo. "Ser ou não ser". Deus vai se tornando menos importante. Saltando para hoje, aos países mais ricos. percebe-se que deus quase se tornou desnecessário. Você lembra do que eu disse lá no início?
Sim, "imagine tudo, sem um criador", algo assim.
Percebe que, ao passo que o homem vai avançando no auto-conhecimento, ele vai deixando de lado uma figura? Figura essa que ele mesmo criou, já que no nosso hipotético universo não há criadores. Somos deuses de nós mesmos. Agora, ligue o botão que faz com que deus exista. Veja, ele existe.
Bem... As coisas parecem fazer mais sentido agora. Como se tivessem, no fim, um propósito.
E qual é esse propósito?
Não sei...
Você concorda que, é você quem mudou ou transformou deus em algo 'concreto'!? Percebe que, foi você que 'desligou' o botão que assumia o valor de sua existência?
Claro... Pois foi tudo hipotético, não?
Bem... Quem dirá o que é uma hipótese ou fato? Teoria ou lei? Não é o conhecimento? Mas... Sim. Foi hipotético.
Me sinto um pouco estranho... Bastante.
Quero que, antes de finalizar esta sessão, que pense nesta frase; do filósofo Frederich Nietzsche: Cada pessoa tem que escolher quanta verdade consegue suportar; e esta, de um famoso escritor: É preciso de bilhões de anos para criar um ser humano, e ele precisa só de alguns segundos para morrer. Acha que pode se lembrar?
Sim... Acho que posso.
Bem, então te vejo semana que vem.
A próxima consulta fica pro mesmo horário?
Sim, qualquer coisa dê uma olhada na recepção.
É como se fossemos tudo!
Desculpe?
A história do universo, eu digo, está presente no meu ser... Faz parte dele!
Sim. Você é a prova viva de que, talvez, houvesse sim finalidade para aquele minúsculo ponto...
Gabriel Engelman
domingo, 12 de junho de 2011
Ao seu precioso dia
Essa merda de música. Entro na festa, e é como se minha mente implodisse em nada. O único som que escuto é ensurdecedor, um dance psicodélico. Aí vejo trocentas pessoas, cada uma mais absorta em seu mundinho que a outra, o fim de semana precisa gastar, preciso fazer valer a pena, elas pensam. Não é que eu começo a fazer parte também? Meus amigos me puxam e começamos todos a criar uma rodinha, eu com um pé na consciência e outro nesse sonho berrante-fosforecente. Daqui a um tempo, tomamos uns drinques caros pra cacete e tudo fica realmente bom. Agora toca outra música mais cafona, um remix daquela zombie nation e seu tradicional ôÔôÔôô, eu devia ser adolescente quando ouvia isso. Pausa. Aí acordo, do nada, em casa. Faço tudo o que é preciso para começar o dia, no banheiro, depois de mijar e escovar os dentes, tomo um bom banho. Enquanto espero uns minutinhos o xampú fazer efeito, percebo que no rótulo da embalagem diz "sem sal". Alívio. Podia bem que processar eles caso minha pressão intra-craniana aumentasse. Há. Esqueci o que rolou ontem. Realmente, não faço ideia. Tem um hambúrguer na geladeira, e descubro que esse será o almoço. Descubro também, quando viro de costas, uma garota parada na minha frente, o que só piora o fato de ser um sanduba.
É claro que eu não posso reclamar, mas acordo pensando onde diabos estou! assim que a pessoa na qual estava abraçada levantou. *Paft* Aí vejo tudo. Lembro de ontem, do Diego, da Manu. Até que o quarto do Diego é bonito, eu reparo, tudo meio avermelhado, e uns quadros que parecem mais rabiscos nas paredes. E ele chama isso de arte. Provavelmente é o único que compra essas porcarias. Gosto do cheiro dele no travesseiro. Ponho a roupa, e, quando vejo a hora no relógio da mesinha quero morrer. Saio disparando para a cozinha e vejo os cabelos ondulados se virando com uma cara de susto indisfarçável. Então ele me reconhece expressando alívio. "Claudia", mas vou me explicando e saio correndo, que qualquer coisa ele me ligasse. Na parada de ônibus tem umas mil pessoas, mas felizmente consigo ver um lugar entre os últimos bancos. O chefe vai me matar.
O iPod tá em modo shuffle. Juro que não gosto de Erik Satie, as duas Gymnopedies são tudo o que posso dizer que é "razoável". Próxima. Agora até não tenho mais medo de levar pra lá e pra cá meu player, considerando que nada vai acontecer e que tenho um skate caso a situação fique muito tensa. Claro, dentro do ônibus eu tô fudido. O que me lembra a prova de funções, não sei quase nada disso, exceto as fórmulas pra encontrar o termo independente, como fazer domínio e imagem, e de resto me sobra uma grande interrogação luminosa. Queria mesmo era continuar a escrever. Sei que meus contos são uma merda, e que quase todos são iguais. Mas, não sei, aqui no ônibus tem tanto "recurso material" pra compor umas histórias que... Já pensou quantas histórias inter-relacionadas? Quanta coisa legal e também quanto lixo as pessoas levam consigo? Uma loirinha sobe, bem bonita, mas com uma cara de que acordou agora e com o que parece roupas de festa. Rabisco rapidamente as feições/roupas dela. Ih, ela me olha com uma cara feia, do tipo "procurando alguma coisa, pirralho?". "Não, não," é o que meu sorriso responde. Já até encontrei.
Gabriel
quarta-feira, 27 de abril de 2011
"Despertar"
Oi pessoal, vou deixar aqui o link de um conto que eu fiz, dividido em 4 partes. Trata-se de um conto sobre um garoto que acompanha a trajetória do melhor amigo no hospital.
http://sujeitoaminhaexistencia.blogspot.com/2011/04/despertar-i.html
http://sujeitoaminhaexistencia.blogspot.com/2011/04/despertar-ii.html
http://sujeitoaminhaexistencia.blogspot.com/2011/04/despertar-iii.html
http://sujeitoaminhaexistencia.blogspot.com/2011/04/despertar-iv.html
Comentem aqui o que acharem!
Aviso: Não o coloquei diretamente no blog pelo fato de que parte se seu conteúdo não se enquadra com as "regras" do blog.
Sintam-se livres para deixar de ler caso se sintam encomodados com conteúdo de cunho sexual ou com linguagem chula.
Acredito que é só um detalhe que faz parte da dinâmica e proposta do conto, mas fica a dica!
Ass.: Gabriel Engelman
sábado, 23 de abril de 2011
A Tale from this curious girl
Amanda não se conformava em ser uma pessoa um tanto distinta das outras. Seus interesses estavam sempre ligados à arte, sua maior paixão era o desenho. Também gostava de ler muito, e ocasionalmente, arranhava uns acordes no violão. Nunca ia à festas, as achava entediantes e um mero desfile de roupagens e desejo de aparecer mais que o outro. Ela também não era bonita, o que dificultava que qualquer garoto interessasse-se por ela, ao menos de primeira vista. Ela, entretanto, teve um namorado, do qual partilhou um ano de profunda amizade seguido de um relacionamento de mesma duração. Fazia pouco tempo que ela o deixara, e era como se nada tivesse mudado, sua então tentativa de adequar-se ao sistema social falhara indubitavelmente. Amanda estava plenamente consciente que ser uma pessoa diferente podia ser um trunfo em alguns aspectos, ainda mais em seu caso. Porém, no âmago do seu ser ela queria ser nada mais nada menos que uma garota qualquer, processo inverso ao usual. Ela não demonstrava nem se esforçava muito para concretizar este sonho.
Foi quando eu estava desenhando essa pomba no centro. Muito bonita e tentava captar tudo. Medo de mendigo era tarde. Mendigo e pomba me deu essa coisa estranha, um impasse tolo aparente. Mudar sim eu posso. Preciso ser franca se quero pra valer. Desisto dessa vida de dor que esse ser diferente me provoca um dia afogo num poço bem grande de luto se continuo. Quero amigos comuns. Quero gostar de música ruim. Quero ter um namorado infiel e chorar por ele, comer demais e engordar quero abrir mão de quase tudo. Quero me alienar, qual seria o primeiro passo para afogar minhas hemoglobinas em mesquinhez? Assistir novelas e ir à festas? Só não prometo que vou conseguir. Preciso de um algorítimo que permita uma idiotização total. Desse jeito não dá mais. Raiva.
A praça estava escurecendo. Havia apenas uma pomba velha, uma garota e um mendigo. A pomba catava com desespero qualquer migalha no chão. A menina estava focada para dentro de si, revendo conceitos com um lápis em mãos. O mendigo tentava lembrar onde estava ontem e imagina se a menina não tem um dinheiro para uma pinga.
Cai o lápis no chão, uma pomba voa, o caderno meio desenhado é jogado para cima: Há um risco forte e intenso nas duas páginas desenhadas, quase um rasgo na folha que quebrou a ponta do lápis. O mendigo pensa se vai lembrar do que fez hoje no dia seguinte. A garota deixou uma nota de dois reais no banco.
(...) A Amanda mudou demais, Pai. Não é a mesma garota que conhecia. Costumava ser tão assim, autêntica e diferente, sabe? Eu sei que ela tinha vontade de ser como todos os outros, li no diário dela uma vez. Mas nunca pensei que fosse algo sério. Se tu for procurar uma Amanda Mizotti, vai encontrar uma guria fútil e sem nada de mais, à primeira vista. Ela era muito persistente, já te falei isso nas outras cartas, e parece que conseguiu ser o que queria ser. E ela está com um brilho diferente, aquela dor revoltada nos desenhos insanos viraram uma felicidade verdadeira, só tenho pena que isso era a aspiração dela, uma garota às avessas, é o que ela é. Mas ainda dói. Não doía tanto quando ela tinha terminado comigo, mas ela cortar contato e fazer as porcarias que está fazendo, não sei, Pai, preço alto por uma "normalidade". Mas beleza, que seja feliz né? Quase não cabe mais nada aqui, beijo, te amo, saudades Pai.
Ouvimos, por fim, um pio de uma pomba, um arroto de bêbado e um grito de menina.
Gabriel Engelman
domingo, 17 de abril de 2011
Flores e um supermercado
Era uma casa um tanto pequena, num bairro modesto, mas ainda sim tranquilo. Margarida estava de frente para seu velho toucador, aplicando um pouco de blush num rosto dizimado pelo tempo. As rugas eram evidentes, e pareciam mostrar-se como as longas jornadas e batalhas ao longo de sua vida. Margarida podia muito bem lembrar-se de quando era jovem, de seu rosto delicado e que exalava beleza por seus poros, fazendo um certo jus ao nome de flor. A cara que ela agora fitava era quase estranha, e tinha o poder de fazer esquecer de como fora sua aparência, deixando para trás somente a sensação de ter sido bela algum dia. Virando-se um pouco para a esquerda, pode contemplar o quadro da família, e olhava com encanto o rosto esbelto de Roberto, e com alegria para o de seu filho, Diogo. Faz sete anos que Diogo partiu de casa, e quatro anos desde que ele se foi para sempre. Margarida não se conformava na época que o filho tivesse ido antes da mãe, sentindo uma dor lacrimejante e aterradora, que aos poucos foi sendo substituída por um lago de lembranças difusas ao passo que as lágrimas cessavam.
- Margarida, vamos lá! Nós vamos nos atrasar! - Gritou Roberto da cozinha.
- Já vou indo, meu velho, estou terminando aqui.
Os dois seguiram de carro para o supermercado próximo, Roberto sempre reclamando de como era bom antes, quando podia dirigir a noite, e como seus joelhos agora doíam quando cambiava as marchas. Margarida já estava acostumada com tudo aquilo, e suas palavras eram sempre as mesmas "calma, Ro, com um remedinho a dor passa rápido". Dessa vez, no entanto, ela acrescentou sem pensar "pelo menos você está vivo, é o que importa". E o silêncio que seguiu falava mais por si que qualquer outra possível palavra.
- Roberto, - começou Margarida, mudando de assunto.
- Ein é?
- Você acha que eu ainda sou bonita? - Ela falou sem cogitar em uma resposta negativa.
Aconteceu que, bem na hora, eles chegaram ao mercado, e Roberto voltou a reclamar das coisas da mesma forma que sempre fazia. Margarida foi logo puxando um carrinho pelo corredores, enquanto olhava na sua listinha com os óculos, concentrada em dizer a Roberto os itens. Ao passo que o carrinho foi enchendo, uma dor nas costas de Margarida também acentuava-se, e ela queria logo voltar ao estacionamento para guardar as compras no carro. Quando foi buscar farinha de trigo, e mais outros mantimentos, viu uma coisa que a recordou da infância do Diogo. Era o cereal preferido dele, que poucas vezes podiam comprar, uma vez que cereal em si não era coisa barata para quem ganhava um salário modesto. Ela sabia que era uma tolice, mas o impulso da memória foi maior, e colocou a caixa com um certo cuidado maternal, sorrindo, como se pudesse comprar um pouco da vida do seu falecido filho. Quando Roberto foi ver o que ela comprou, começou a dizer que não havia necessidade alguma em comprar um sucrilhos que eles não iriam comer, olhe nossos dentes, você acha que eles aguentam? Ele falava sem pestanejar.
- Ah, Roberto, deixa vai, por favor...
- É melhor não, minha velha, não quero ficar entristecido vendo você falar chorando dele depois...
E Margarida, para dar um desconto ao marido, tirou a caixa, mas não pode deixar de sentir certa raiva pela atitude de Roberto. Ao seguirem finalmente para o estacionamento, abriram o porta-malas com sofreguidão, pois guardar as compras era a pior parte daquele dia. Sem ver nenhum ajudante do supermercado a vista, Margarida começou a puxar as sacolas com as duas mãos.
- Com licença? Os senhores querem uma ajuda para guardar as coisas? - disse uma moça muito bonita que chegou ao lado deles.
Margarida, olhando para ela sem responder por uns momentos, disse:
- Claro minha filha, adoraríamos!
E os três começaram a guardar as coisas, a moça sempre puxando o mais pesado, para o alívio de Margarida. Quando terminaram, Margarida foi sacando uma nota de dois reais para dar à moça, que vendo a atitude logo falou:
- Senhora, não precisa! Foi só uma pequena ajudinha, fico grata por ter sido útil.
- Qual o seu nome, minha filha?
- Meu nome é Rosa, e o seu?
- Prazer, me chamo Margarida. - E as duas trocaram um longo sorriso, para então despedirem-se com alegria. Já no carro, Margarida pensando na beleza da moça, voltou a perguntar ao Roberto:
- Velho, você acha que sou bonita?
E para sua surpresa Roberto a fitou por uns instantes e disse:
- Eu já não te falei isso antes? Para mim você vai sempre ser a única florzinha que alegra o meu jardim.
Gabriel
sexta-feira, 15 de abril de 2011
O nada
- Quem tu estás esperando?
- Meu pai.
- O que há com ele?
- Está dando adeus.
- Esse hospital... ele tem câncer?
- Não, sua irmã, minha tia.
- Esfriou bastante de ontem para hoje; não há saúde que aguente.
- O acaso é o mais cruel dos homicidas; não há saúde que aguente.
- Meus pêsames.
- A ti também, estamos sujeitos ao mesmo.
- Não gosto de silêncio, ele me constrange.
- Não há silêncio a dois; silêncio a dois brada mudo.
- Pois então, o que veio primeiro: o ovo ou a galinha?
- Depende do ovo, depende da galinha.
- Eu não sei mais se devo acreditar em Deus. Tudo parece mais simples e concreto do que Deus propriamente.
- O que havia antes de tudo o que existe?
- Nada.
- Mostre-me o nada.
- Não existe, é nada.
- Isso é impossível pelo entendimento que tu tens do mundo, percebes?
- Não é impossível; houve o Big Bang e tudo começou.
- O Big Bang pressupõe matéria; e de onde veio essa matéria?
- Sempre existiu.
- Tudo possui um começo e um fim, na nossa concepção, no racionalismo que tu estás a considerar agora. Logo, admitirias que nossa concepção está errada, e terias que adotar imediatamente outra crença. Aí entra Deus.
- Nem tudo possui um começo; algumas coisas sempre existiram.
- Tudo o que sempre existiu partiu da matéria.
- Nem tudo parte da matéria.
- O que não parte da matéria?
- É logicamente impossível que tudo parta da matéria, e que se aceite que a matéria partiu do nada; o nada não teria como ter partido da matéria, logo, o nada é o que nunca partiu da matéria.
- E o que é o nada?
- A escuridão, o buraco negro.
- O buraco negro é o conceito que mais pressupõe matéria.
- Verdade; o que sugeres?
- Sugiro que exista uma exceção que não parta da matéria, aliás, que nem parta, que seja perpétua; não é produto da matéria, nem do cérebro, como é o pensamento, a dor e a subjetividade. Essa exceção é o nada; o nada não parte da matéria, ele é uma terceira via ao que chamamos de concreto e abstrato. O nada não está inserido em qualquer compreensão nossa, porque não está diretamente expresso no concreto nem no subjetivo. O nada é o nada. Deus seria o nada, a única exceção.
- E por que Deus resolveu reger os outros dois conceitos?
-Pelo mesmo motivo que o concreto rege o abstrato; por coação sistemática. O nada não pode ser exemplificado, porque a única exceção não parte de nenhum dos outros dois conceitos. O único conceito visível é o concreto, do qual parte a subjetividade, que é perfeitamente explicável a partir da clareza com que se manifesta sua origem. O nada, entretanto, apesar de dialogar e, mais do que isso, conceber os demais, por estar contido em suas essências de forma indireta, não é claro, e acaba incorporando-se e tornando-se inerente a eles. Por isso, ninguém nunca descobriu o nada, ninguém nunca descobriu Deus.
- Queres dizer que Deus já acabou?
- É tão perpétuo quanto a matéria; pode ser dissolvida, fragmentada, modificada, mas nunca extinta.
- Por isso Deus não aparece? Porque ele não é concreto nem abstrato, não sendo passível de exibição de forma alguma?
- Errado; ele é perfeitamente passível de exibição porque, apesar de não ser propriamente concreto ou abstrato, o concreto e o abstrato necessariamente contêm seu princípio, seu núcleo, e o manifestam, mas simultaneamente o confundem a quem vê, de modo que não é percebido. Vês aqueles pardais pousados na janela?
- Vejo, certamente.
- Compreendes que eles podem estar a sentir, seja dor ou fome, mas inevitavelmente estão suscetíveis a uma infinidade de sensações?
- Com certeza.
- De que são feitos os pássaros?
- Pele, osso, carne, conjunto que, segundo a tua teoria, a qual, nesse ponto específico, conta com o meu crédito, origina o subjetivo, o abstrato contido no nem tão complexo contexto de um pássaro.
- Nem tão simples assim, mas está correto. Então entendes que a matéria é o princípio de tudo, ou seja, a conjunção da pele, do osso e da carne; mas o que constituiu tudo isso? Seguiremos em uma linha de raciocínio que, dependendo dos caminhos percorridos, nos levará às mais primitivas substâncias, mas necessariamente substâncias. Impossível será converter alguma noção abstrata em matéria propriamente dita. Tomemos como princípio da constituição corporal dos seres poeira cósmica; a poeira cósmica seria produto do nada. Quais os mecanismos do nada? Impossível descrever, visto que só encontramos sistemas e até mesmo construções verbais que designem o abstrato e o concreto. O importante é que o nada existe e, enquanto negado como via independente, livre da matéria e do subjetivo, torna paradoxal qualquer explicação à existência concreta ou abstrata de tudo.
- Interessante, certamente interessante, mas tenho uma dúvida. Por que escolheste a palavra “nada” como nomenclatura a essa suposta terceira via ou terceiro grau da existência? Ou devo chamar de primeiro grau da existência?
- Perfeito, muito bem observado. Escolho “nada” por um motivo bem simples: o nada é a palavra mais paradoxal e inexplicável que posso imaginar, muito de acordo com a significação a ela concedida. Quando disseres, por exemplo, “não quero nada” ou “quero nada”, estarás querendo exatamente o mesmo, o que pressupõe, talvez, a essência do paradoxo crucial da existência. Ademais, foste tu quem sugeriu a palavra, quando te perguntei o que não parte da matéria, ou o que a antecede.
- Uma última questão, dessa vez nem tão complexa: o que fazes da vida?
- Sou filósofo.
- Eu poderia apostar.
- Costumam dizer que filósofos não fazem nada.
- Isso deve te orgulhar. Aquele homem te chama, seria teu pai?
- É ele mesmo. Estou indo, até mais.
- Espera! O teu nome?
- Fica também a teu encargo.
Por isso eu não me calo frente a nada, mas estou sempre envolta no mais pleno silêncio.
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Por Gabriela Richinitti via Gabriel
www.insanidadeletrada.blogspot.com
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quarta-feira, 9 de março de 2011
O sono da garota
"Bem, sou muito feliz", disse a garota que agora se dirigia ao carro do namorado. Ela fora retocar a maquiagem no banheiro de uma lanchonete, e lamentara-se que carros não costumam ter espelhos grandes o bastante como os de um lavabo. Ela constantemente dizia estar feliz, era mais uma auto-afirmação que a realidade em si, já que no seu âmago nada mais sentia que descaso total. Quando completara a faculdade (o curso fora indicação do pai, que, se o elegesse, ele cobriria a todas suas despesas) mal tinha idéia do que iria trabalhar, apesar de dizer às amigas que "agora sua vida começara pra valer". Ao voltar do banheiro, ela saudou o namorado com um longo beijo, e disse que não queria fazer a mesma coisa de sempre, ou seja, ir ao shopping.
Ele estranhou, e perguntou onde ela iria querer ir, com uma certa malícia na voz. "Aonde você achar mais agradável" ela falou enquanto lixava as unhas, sem dar bola às aparentes vontades do namorado. "Beleza, vamos dar uma volta por aí." ele falou um tanto decepcionado.
O carro andava rápido na auto-estrada, a paisagem mudara consideravelmente e o sol estava quase omitido pelo horizonte. "Você me ama?" perguntou o namorado de repente. Ela olhou surpreso para a cara de expectativa do garoto, estudou seu semblante que a mesma achava adorável e belo e, após uma breve pausa, concluiu: "claro" e sorriu, um dos seus mais falsos sorrisos, mas que a garota nem sabia distinguir mais entre encenação e honestidade. Enquanto eles andavam, a garota com sua mão repousada na perna do namorado, ele começou a ficar mais tenso, e ela pensou que ele talvez estivesse excitado ou algo do gênero. "Aqui", ele falou olhando para sua direita, mirando algum lugar de um bosque que ela desconhecia. Ela compreendeu que a tensão era por ele a levar em algum lugar desconhecido, pois sabia que a jovem detestava lugares onde não pudesse fazer compras.
"O que você acha de fazermos uma trilha?" ele falou baixo no seu ouvido enquanto o beijava com delicadeza. "Bem, desde que você conheça o caminho," ela ponderou. "Claro, minha vida, não te levaria em um local desconhecido" e dera uma boa risada, acentuando sua jovialidade e seus traços, o que a fez rir também. A garota só preocupava-se em não sujar os cabelos, pois detestaria ter que ir ao salão no dia seguinte, e se mostrou um pouco ranzinza por isso; "Relaxe, amor, o lugar é bem aberto" ele falou enquanto testava sua lanterna e colocava as chaves no bolso. Ao ingressarem na mata, a jovem percebeu que haviam muitos ruídos estranhos, o que a deixou um tanto insegura. "Tem certeza que é tudo ok?" ela falou sem olhar o garoto. "Sim! Vamos indo que quero te mostrar uma coisa". E assim foram andando, durante uns 20 minutos, até que a garota irritara-se: "Poxa! Não vamos chegar nunca? Não suporto mais esse mato, meus pés estão doendo, estou me coçando pelos mosquitos, logo vou desistir se não houver nada próximo!" sua voz irritada deixou o garoto um pouco preocupado, que a abraçou e disse "calma, estamos quase lá, prometo que você vai gostar" sua voz a reconfortou um pouco, e o toque de seu corpo contra o dela a deixara um pouco corada, assim como o perfume que exalava da sua pele, despertando um certo apetite na garota. "Ok, vamos lá, mas já sabe, se não houver nada de mais não durmo com você hoje" falou com uma voz trêmula. Ele dera um risinho como se soubesse o que a jovem estava realmente pensando, e ao olhar para a mesma com uma certa volúpia disse: "Tudo bem, pode deixar.".
Ao seguirem passo, a garota fora abrir a boca para reclamar novamente, entretanto a fechara, pois eles agora estavam diante uma grande clareira, com uma cachoeira mais ao fundo. A lua iluminava harmoniosamente, como se alguém tivesse feito cortes estratégicos nas árvores para que um peculiar prateado batesse tanto nas águas como nas flores que cercavam a clareira. "Não é a coisa mais bonita que você já viu?" perguntou o garoto sem mais nenhum tom de suspense na voz, e sim com uma cara de vencedor.
"Nunca imaginaria um lugar tão belo" ela falou de fato surpresa, pois algo dentro do seu peito remexera-se, como uma coisa que ela há muito houvera perdido tivesse retornado ao seu coração. "Que tal darmos um mergulho?" o garoto falou radiante, estendendo a mão a rapariga. "Não sei, talvez não seja meio perigoso? Digo, é noite e..." porém ela nem se deu ao trabalho de forçar um tom convincente, e quando o jovem percebeu, exclamou: "Quem chegar por último é mulher do Padre!" enquanto se despia no caminho. "Só se você for a menininha dele!" retorquiu surpresa com a própria atitude, e disparou fazendo o mesmo. Quando os dois atiraram-se, a água estava um pouco gelada, mas era tão cristalina que o efeito do luar sob a superfície a fizera esquecer disso. Enquanto brincavam feito crianças, a garota fez algo que notoriamente tinha a muito tempo parado de fazer: sentir-se realmente bem consigo mesma e tendo em sua mente o momento atual, sem divagações sobre inutilidades diversas. E bem, o contentamento que ela sentia não assemelhava-se nem de longe ao comprar ou ir a uma festa, e era tão real e tangível que ela seguramente poderia desfrutar daquilo para sempre.
Gabriel
A Felina Festa Do Chá
A Felina Festa Do Chá







A Senhorita Tabitha era uma gata muito quieta, de pelagem macia, e era tão cerimoniosa que seus amigos diziam que ela era uma solteirona; alguns diziam que ela era uma gata velha, mas estes nunca tinham sido chamados para uma das suas maravilhosas ''festas do chá''. Quando ela dava uma festa do chá, ela pedia para que seu criado Jacko entregasse os convites. Jacko era um macaco esperto, que tinha acabado de vir do Jardim Zoológico, onde ele costumava ter muita companhia.
Um dia a Senhorita Tabitha teve a ideia de promover uma festa do chá maior do que de costume, então ela preparou uma travessa de camarões, um saco de muffins, um bolo, um novo pão francês, e um quilo de manteiga fresca. E então ela pediu para que Jacko, que vestia um novo sobretudo, convidasse os amigos.
Jacko, o macaco, foi entregar os convites.
O primeiro a chegar foi o Sr. Ronrono Macio, um velho gato solteiro, que deitava-se quase todos os dias sob o sol num banco de jardim, observando os pássaros, mas que era muito gordo para caçar ratos. Ele veio junto à sua irmã, a Sra. Ronron Macio, que era uma ótima cantora, quase sempre usava uma palatina de pelos e bebia uma grande quantidade de leite para suavizar a sua voz.
O Sr. Ronrono Macio e outros convidados chegaram à casa da Srta. Tabitha.
O Sr. Garras-Pontudas era um sujeito muito diferente. Ele era orgulhoso de sua família nobre, pelo seu pai que era primo em segundo grau do gato de Dick Whittington, e que já tinha conhecido boa parte do mundo. O Sr. Garras-Pontudas também tinha muito orgulhoso de seu bigode, por isso antes de ir para a festa, ele passou no Sapo Seboso, o barbeiro, para ser barbeado. Enquanto ele estava lá sentado, com uma toalha sob o queixo, apareceu o seu amigo Capitão Black, um indivíduo muito valente, que já havia matado centenas de ratos, e estava sempre pronto para brigar. Ele era muito desejado pelas moças, e disse que iria à festa do chá ainda que não tivesse sido convidado.
O Sr. Garras-Pontudas foi até o Sapo Seboso, o barbeiro, e enquanto ele estava sendo barbeado, o Capitão Black apareceu por lá.
As quatro Senhoritas White já estavam a caminho da casa da Srta. Tabitha, com suas longas meias limpas, e seus maravilhosos vestidos de seda que sua mãe havia as dado. A Sra. White mais velha vivia perto da padaria da esquina, e o nome de suas filhas eram Fluffy, Tibby, Titty e Tip; todas elas eram famosas por suas belas pelagens e seus olhos brilhantes. Você pode ter certeza que os quatro Mestres Casco-de-Tartaruga estavam esperando por elas, pelo fato deles terem esperado durante a tarde toda, com seus casacos-de-rabo, com o propósito de acompanhar estas jovens encantadoras. Eles eram rapazes muito jovens, de modo que eles estavam muito orgulhosos por terem sido convidados.
Havia uma mesa de chá enorme, e quando todos se sentaram, Jacko não deu conta de servi-los, - mas os cavalheiros alcançaram o chá às damas, e pegaram os maiores camarões para as Senhoritas White, e praticamente esvaziaram o jarro de creme para o Sr. Ronrono Macio, e ajudaram-se com os muffins, e certamente todos ficaram muito satisfeitos.
O Capitão Black estava tão faminto que ele ficava o tempo todo em volta do pão e da manteiga. Ele pegou o prato que estava bem debaixo do nariz do Sr. Garras-Pontudas, o que o deixou tão furioso, que nada no mundo o contentaria a não ser um sorriso da Srta. Tabitha.
Depois do chá, pediram para que a Sra. Ronron Macio cantasse, e enquanto ela tomava mais um gole de leite, disse que iria cantar uma cancão muito antiga com variações. A canção se chamava Moll Rowdy, e o acompanhamento era de Spitz, e todos disseram que nunca tinham ouvido nada tão notável. Então a Srta. Tabitha, que tinha um bom ouvido, entregou a ela uma pequena canção folclórica que tinha um coral de Tant Miau, e todos participaram, o Capitão Black e o Sr. Ronrono Macio cantando a linha do baixo. Então o Capitão contou a história de uma de suas viagens à Ilha dos Cachorros, e o Sr. Garras-Pontudas contou sua aventura até Sta. Kitti, o que fez com que todos rissem.
A Sra. Ronron cantou uma canção e foi admirada por todos.
Mas o grande momento daquela tarde foi quando os quatro Mestres Casco-de-Tartaruga, que se chamavam Bob, Rattle, Clipper e Dick, chegaram na sala com grandes colares brancos e rostos pintados de preto, e começaram a cantar como seresteiros da Etiópia. Bob tocava uma rabeca, Rattle os chocalhos, Clipper o banjo, e Dick o tamborim, enquanto cantavam ''Old Dan Tucker'' e ''Kafoozlum''. As quatro Senhoritas White quase caíram das cadeiras de tanto rir, e o Sr. Garras foi visto colocando sua cauda sobre a boca; O Capitão Black não gostou muito daquilo, pois tinha pelagem preta e pensou que estavam rindo dele.
Mas o grande momento da tarde foi quando os quatro Mestres Casco-de-Tartaruga chegaram na sala vestidos de seresteiros da Etiópia.
Já era hora de todos irem embora, e o Sr. Ronrono que era muito preocupado com o horário, escovou seu casaco no hall e disse boa noite. O Capitão Black ajeitou seu sobre-tudo; O Sr. Garras penteou seu bigode, e as damas começaram a ajeitar seus vestidos para a caminhada. E então desdobrou-se uma agitação tão grande por todos estarem se despedindo, que inclusive alguns vizinhos olharam pela janela para ver o que estava acontecendo; especialmente quando o Capitão Black e o Sr. Garras-Pontudas se desentenderam e brigaram no meio da rua. No entanto, todos os outros convidados chegaram bem em casa.
Na saída dos convidados, o Capitão Black e o Sr. Garras-Pontudas desentenderam-se e brigaram.
Arthur Wilkens
''The Cat's Tea Party''
Autor desconhecido
Tradução: Arthur Wilkens
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Retrato (mini-conto)
Ela mantinha seus breves momentos, em que, contida, rastejava o olhar pelo canto dos olhos, os quais eram azulados e magníficos, que logo caíam sobre a mesa. Bebia um pouco do chá, enquadrando numa doce moldura o silêncio inoportuno. Por um ínterim, pensei: a lembrança é a ideia que temos de um passado. Já o agora não constitui ideia alguma: aquilo não constituía ideia alguma, não naquele momento. As coisas só ganham sentido moral quando paramos para pensar sobre elas. Não era o caso: aqueles minutos não marcavam o tempo: me atingiam como um sentimento cristalino, sabendo que, sem adentrar em bifurcações perigosas de sua moral insegura, ela sentiria o que eu queria que sentisse.
Arthur Wilkens
http://portapoesia.blogspot.com/2010/10/retrato.html
obs: mudei o layout, espero que também tenham gostado.
Arthur Wilkens
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obs: mudei o layout, espero que também tenham gostado.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Momento de Alva Alegria
Era mais uma tarde de inverno rigorosa. O frio dançava com a chuva lá fora, enquanto num canto do meu quarto tentava fazer o dever. Por mais que eu me abrigasse, era como se o maléfico ar que respirava congelasse minhas entranhas, deixando-me inerte e incapaz de tornar o que lia em algo claro e coeso. O barulho da cadeira que gemia sinalizava minha impaciência, tão intensa que eu agora sofria de uma tremenda enxaqueca. O remédio era ao mesmo tempo deixar o quarto como também uma pílula sobre a mesa da cozinha. Ao ver tamanha bagunça e nenhum copo limpo, me pus a lavar a louça, ao passo que minhas mãos eram acalentadas pela água morna. Sem interesse algum, contemplava pela janela a cidade que eu me encontrava. Fétida. Esquecida. Tediante. Mas ainda sim cidade que prosperei parte da minha vida. A ingratidão que sentia misturava-se à solidão que, por ser diferente, consumia-me por não ser daqui. O gozo sentido pela água cada vez mais quente lavava tais pensamentos de mim. Afinal, eram só mais alguns meses até dizer Adeus àquela cidadezinha. E, para quem esperou quase uma vida toda, isso não era nada.
Quando a torneira foi parada para secar a louça, percebi algo estranho: aparentemente, caía algum tipo de poeira, talvez cinzas, do apartamento de cima. Com uma curiosidade movida pela inércia do momento, empurrei a janela de maneira que se abrisse. O engraçado, todavia, não era a clareza da poeira, mas sim sua frescura. Com um olhar mais apurado sobre aquela estranha substância, percebi que ela derretia. A partir disso, era como se um motor velho fosse depois de muito tempo, acionado. O calor que sentia por dentro nada tinha a ver com a água que antes esquentara minhas mãos. Faíscas de prazer cintilavam nos meus olhos. Era o sentimento do novo, a excitação que quebra nossas rotinas, assim como um parente muito querido que bate à porta, fazendo uma calorosa e inesperada visita.
No andar de cima, Matias não via a hora de terminar de esvaziar o modesto freezer daquela antiga geladeira. Era tão velha quanto difícil de tirar os cubos de gelo, que quando removidos à força criavam uma consideravel camada de gelo fino, e, se não limpa, cairia no chão podendo até causar algum acidente. O copo de whisky jazia sobre a mesa com seus dois cubos, quebrando a uniformidade do vermelho alaranjado, assim como sinalizando que a bebida estava pronta para aquecer quem, naquela rigorosa tarde de inverno, a bebesse.
-gabriel
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Conto n.1
Na noite fria e calada, dos restos miúdos sobre a sarjeta, surgia um inseto magrelo, escravo da ausência de tudo, senão do instinto de permanecer vivo. Bicho de vida curta, e regado, ainda assim, pela esperança ao nada e ao ninguém. Esmagado fora o pobre, pela sola da moça do cotidiano efervescente, do casaco de couro, colar de rubí, dos dentes de marfim. Passos rápidos e firmes, postura clara e objetiva, andava a moça cortando a escuridão. Por dentro, nada além da verdade sobre si. Iludida, precária, miserável, jogada do trono, cuspida do mundo, e o caminhar sobre caminhos distintos. Parou no portão de um sobrado de jardim horrendo, tocou a sineta e aguardou. - ''Quem é a moça?'' , ''Vim para a festa!'' -. O casebre a recebeu, o velho sedentário a conduziu por escadas e viram-se postos em um hall aquecido pelo fogo da lareira. Cortinas precárias dançavam aos estalos da madeira, e no palco de um sofá esburacado deu-se toda a festa. E como carnal se fez a cena, das roupas da moça atiradas no fogo pelo velho, sem ela ter notado. Ele se esgueirava do rosto da moça para conter o olhar de ironia, e deitou a cabeça sobre o encosto do sofá, confortou-se, junto ao incasável luto da parceira pela sua satisfação. Adormeceu um tempo depois, sendo interrompido pela previsível esteria da madame agarrando-o pelo braço. - ''O que fizestes com minhas roupas?!'', ''Juro que não foi de minha intenção, elas caíram no fogo e não pude mais nada fazer.'' ''Deverá me pagar em dobro!'', ''É isso mesmo que queres? Ser paga em dobro por eu ter, acidentalmente, derrubado tuas roupas no fogo da lareira?'', ''E não seria digno? Ou espera que eu daqui, saia nua pelas ruas da cidade, para todos verem meu corpo?'', ''Confesso que isso não difere muito dos teus serviços.'', ''Velho imundo! Se não me pagar em dobro nesse exato momento, te ponho numa fria.'', ''Não precisamos criar problemas, venha até aqui comigo...'', ''Estou nua.'', ''Ora, não tem problema, o dinheiro é o mais importante, depois lhe consigo algum trapo para vestir'' -. Desceram as escadas e ele a conduziu a uma saleta próxima a porta de entrada do sobrado. No interior da pequena sala, descansava um cofre imenso. O velho o abriu e retirou alguns trocados. - ''Aí está, o seu pagamento.'' - A moça recebeu as notas e envergou a expressão. - ''Aqui não tem um terço.'', ''Vejamos, tome mais essas.'', ''Maldito, ainda falta o dobro.'', ''Claro, o dobro... eu já ia me esquecendo, vejamos...''. - Movimentou-se por trás do cofre e o empurrou rispidamente em direção a parede, que concedeu uma chuva de cupins na cabeça de ambos. O velho repetiu o movimento e dezenas de bolos de dinheiro caíram pelo chão. A moça, ainda nua, ajoelhou-se desesperadamente e passou a mão na maior quantidade possível. Carregando a fortuna como uma criança no berço de seus braços, esvaiu-se da saleta e chutou a porta de entrada, que não abriu. - ''Aonde está indo com o meu dinheiro? Fedelha inconfiável.'' -. O bravo suspiro do dono do sobrado amedrontou a moça, ele mancava apressadamente em sua direção, com o ódio no rosto, a bengala apontada como ameaça certeira. Correu em direção a janela o corpo belo e curvado da moça, pálido, banhou-se de desespero e resvalou no assoalho, provocando um baque que estremeceu as paredes, que jorraram cupim pela última vez. - ''Um velho depressivo em sua própria casa já não vale mais nada, veja bem... vamos ver quem é quem causa a maior notícia!'' -. Caiu sobre o corpo da jovem e a prendeu ao chão pelo pescoço. Encarou-a com os olhos fervendo, desfez o berço dos bolos de dinheiro e tomou posse de um deles. O grito de desespero da vítima ecoou pelo hall, a sua boca aberta como um poço. - ''Morre, mas engole o que estava querendo antes.'' - Possuído do bolo de dinheiro, o velho fez força para introduzi-lo pela garganta da prostituta, que já não produzia mais berro algum. Os olhos esbugalhados, os dentes cravados no dinheiro que sobrava pra fora da boca, um silêncio repentino e a morte fora anunciada. O assassino permaneceu intacto, satisfeito por um momento. Arrastou o cadáver empoeirado até a cozinha, portou a lâmina mais afiada e dela se fez cadáver parceiro, deitado sobre a vítima, o coração apunhalado, o mar de sangue, reinando o assoalho que jamais fora lavado.
Arthur Wilkens
Arthur Wilkens
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